O Contrato Social de Snowden

Talvez um dos princípios basilares que tornaram possível a convivência humana em sociedade seja o que se conhece como a “supremacia do interesse coletivo sobre o interesse individual”, o bem estar social sempre foi o objetivo maior de toda vida em comum e para se alcançar é necessário transcender a esfera individual.

Rousseau teve esse insight e concebeu uma ideia genial sobre esse princípio e o chamou de “contrato social” que nada mais é do que a síntese desse confronto de interesses, como preservar o interesse individual e mesmo assim garantir a segurança coletiva? E dessa maneira num acordo de vontades todos os indivíduos deveriam estar dispostos a abrir mão de parte de sua liberdade e direitos em prol da coletividade formando assim ideologicamente uma sociedade perfeita.

Claro que digo isso de uma maneira bem sintética, até porque o filósofo esmiúça essa ideia e vai muito além, mas para fins didáticos para a minha proposta esse resumo do pensamento dele é suficiente além do mais é interessante buscar a fundo a obra “Do contrato Social”.

A proposta do autor levou no decorrer dos séculos a uma análise social, política e legal tendo sempre em vista que o homem é um animal gregário e está intrínseco na natureza do ser esse convívio social, os comportamentos e leis giram muito em torno desse pensamento.

A ideia reflexiva que Snowden traz é justamente mais uma das tantas vertentes do pensamento de conflito de liberdade social, até que ponto estamos dispostos a abrir mão das nossas liberdades individuais em prol do bem comum? Através dos conflitos internos do protagonista, seus anseios, paixões e sentimentos o cineasta Oliver Stone vai levantar mais uma vez essa bandeira.

Em sua carreira Oliver Stone sempre alcançou temas políticos, como todo diretor com assinatura ele revisita vários e vários assuntos e contextos, não é atoa que ele fez filmes como JFK, Nixon, Nascido em 4 de Julho como também fez Wall Street (e sua continuação) dentre tantos outros, e com criatividade admirável moderniza sua visão para um tema antigo mas com moldes bem atuais, até muito por ventura da evolução tecnológica do mundo.

Basicamente, a central de inteligência norte americana idealizou um sistema de monitoramento global, através de todos dispositivos tecnológicos, celulares, computadores, câmeras, iriam armazenar dados de todos do planeta, com a desculpa de que seria uma medida para o combate ao terrorismo, principalmente devido ao fatídico 11 de setembro, e Edward Snowden foi um dos nomes que fizeram parte do desenvolvimento e implementação dessa tecnologia até pelo fato de ser sempre um cara acima da média em se tratando de manuseio de linguagem computacional.

O mérito maior de Oliver Stone é imprimir um ótimo ritmo narrativo para o roteiro, que por ter diversos flashbacks, correria o risco de ficar confuso, o que não ocorre devido à mão do cineasta que consegue afastar o ar documental (o filme é uma cinebiografia) para conferir credibilidade e sentido ao objetivo do seu personagem principal.

Snowden no decorrer de sua carreira começa a se questionar se aquilo que o seu governo estava elaborando era correto, e com isso seus valores morais começam a emergir juntamente com sua relação amorosa com Lindsay que direta e indiretamente influenciaram em seus dotes morais, e isso é tratado de maneira muito cuidadosa pelo diretor que não perde muito tempo com o passado mais distante sempre focando nos acontecimentos mais recentes e relevantes da vida de Snowden e que o levaram a tomar uma decisão: expor o governo para mundo.

Não se pode deixar de observar que a linguagem que Stone usou é básica não fazendo uso de técnicas mais virtuosas, mas isso em momento algum fica ruim, pois o que realmente importa no filme é a dicotomia moral que seu protagonista se encontra e por diversas vezes deve-se relevar alguns furos de roteiro como, por exemplo, o personagem do Timothy Olyphant que meio que desaparece sem o estofo necessário, mas tem ali vários planos detalhes em alguns objetos, principalmente o cubo mágico, que é um símbolo para cada momento que o protagonista se encontra.

Vale dizer que Snowden é um filme que trabalha muito bem um tema que leva a reflexão e de maneira muito bem atualizada o que é muito positivo principalmente por seu diretor que demonstrou não ter ficado ultrapassado, trabalhando questões morais, políticas e sociais com muita competência pela sua simplicidade técnica.

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