Revisitando Neon Genesis Evangelion

Pessoalmente nunca muito fã de animes. Tenho um certo preconceito com alguns clichês recorrentes nesse tipo de animação o que acabou me distanciando de qualquer interesse de acompanhar animes regularmente. Entretanto Neon Genesis Evangelion foi uma exceção por ter me chamado muito a atenção.  O visual estilizado dos robôs gigantescos, o cenário apocalíptico e as inúmeras referências religiosas sempre me faziam querer entender esse mundo estranho que a série apresentava. Ouvia com frequência elogios a sua complexidade e um dia decidi que ia assistir para ver qual é a da parada.

Apesar de ter gostado na época achei o anime meio superestimado, mas a verdade é que não me atentei a inúmeros detalhes. Mas apesar de uma primeira impressão aparentemente negativa, o anime me marcou e só me deixou mais intrigado cada vez que pensava nos personagens e no universo sci-fi tão intrigante que ele nos mostra. Recentemente decidi assistir novamente, após um período de mais ou menos 3 anos de diferença de quando assisti pela primeira vez. E hoje posso dizer que realmente Evangelion possui muito mais camadas do que parece e é inegável que é um belo trabalho.

Aproveitando essa vibe possibilitada pela nova assistida decidi fazer esse pequeno post com alguns dos inúmeros detalhes que podem ser observados na obra prima de Hideaki Anno, considerado por muitos o melhor anime de todos os tempos.

Aviso: Como se trata de uma breve análise, teremos alguns SPOILERS. Se você quer curtir do zero vai lá assistir e depois volte aqui ou se você não se importar vá em frente sem medo, pois nada descrito aqui se compara a experiência de assistir.

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A história se passa no ano de 2015, ja fazem cerca de 15 anos que metade da população mundial foi dizimada por um fenômeno batizado de “segundo impacto”, supostamente ocorrido devido a queda de um meteoro. Subitamente diversos seres gigantescos e misteriosos batizados de “anjos” começam a atacar a cidade de Tokyo-3 e cabe a organização paramilitar NERV combate-los  usando sua maior arma, os gigantes biomecânicos Evangelions  controlados por adolescentes para deter essa nova ameaça e impedir um terceiro impacto e a consequente extinção da humanidade. Acompanhamos o protagonista Shinji Ikari piloto do Evangelion unidade 01 e suas colegas Rei Ayanami e Asuka Langley, pilotos das unidades 00 e 02 respectivamente.

Evangelion é um anime do estilo mecha, gênero clássico onde os protagonistas (geralmente adolescentes) pilotam grandes robôs para combater todo tipo de ameaça como alienígenas ou outros robôs. Deste gênero destacam-se exemplos como a série Gundam e Macross, ambos antecessores de Evangelion. A serie foi criada por Hideaki Anno fundador do estúdio Gainax e foi ao ar entre 1995 e 1996 na Tv Tokyo e consiste em um total de 26 episódios.

Durante o período em que Evangelion foi transmitido o Japão passava por uma forte recessão econômica que abalou os ânimos do povo gerando um mal estar generalizado no país, sendo que o próprio Anno passou por quatro anos de depressão antes de iniciar os trabalhos do anime. Esses fatos são atribuídos como influência ao clima melancólico e até certo ponto pessimista carregado pela serie. Ao contrário de outros títulos do gênero, os personagens  de Evangelion carregam uma forte carga de angustias e questionamentos em frente a um mundo apocalíptico e cheio de incertezas.

Aqui tomarei a liberdade de levantar uma comparação feita pela Wikia brasileira de Evangelion que compara a obra de Anno a Watchmen de Allan Moore por ambos representarem uma subversão dos gêneros ao qual pertencem. Watchmen nos apresentou um novo tipo de super herói, totalmente decadente, indiferente e cheio de duvidas, o completo oposto do super herói clássico, cheios de bondade, com um senso de moral bem estabelecido e um tanto unidimensional. Evangelion não faz diferente e nos apresenta personagens completamente opostos ao que se espera de um anime de ação em um mundo completamente violento e cruel.

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Shinji é extremamente inseguro, covarde e incapaz de tomar decisões por conta própria apesar de ser plenamente capaz de pilotar seu Evangelion e derrotar os anjos. Um protagonista completamente diferente do arquétipo de herói estabelecido durante décadas na mídia de animação japonesa. Os primeiros episódios não diferem em nada de um clássico anime mecha: muita ação, momentos de alivio cômico e fanservice, até que aos poucos o enfoque dado ao psicológico dos personagens vai tomando força até o ponto de roubar a cena e mudar o tom do anime completamente. A relação cada vez mais problemática entre os personagens se alia aos mistérios que vão se desenrolando na trama deixando o espectador cada vez mais curioso.

É esse conjunto que torna a obra tão interessante. Neon Genesis é fruto  de um movimento da cultura pop que não se preocupava  em gerar novos heróis perfeitos, mas sim em expressar angustias e questionamentos de uma geração que testemunhava o mundo mudar completamente sem ter uma luta ou causa muito especifica. O objetivo é mostrar pessoas comuns com problemas reais lidando com situações extremamente anormais.

Evangelion constantemente nos coloca como analistas do psicológico de seus personagens. Existe um grande enfoque como a forma que experiências nos afetam e acabam moldando  nosso caráter e personalidade.Diversos personagens possuem relação problemáticas com seus pais. Shinji se vê em conflito após ser chamado para pilotar o EVA unidade 01 pelo seu pai, o comandante Gendo Ikari cabeça da NERV,  que o abandonou ainda quando era pequeno. Ao mesmo tempo que despreza seu pai devido o abandono ele deseja seu afeto que só pode se manifestar através de uma possível aprovação por pilotar o EVA.

12-SorcererAsuka, a talentosa piloto da Unidade 02 é extremamente habilidosa, resultado de anos de treinamento para exercer sua função de combate aos anjos oque a conferiu uma personalidade confiante e até arrogante em comparação a de Shinji. Porém com o desenrolar da trama vemos que essa suposta confiança é resultado de rejeição por parte da mãe  que a trocou por uma boneca de pano devido instabilidade mental. Após ser jogada de lado e presenciar o suicidio da mãe, Asuka decidiu se tornar adulta precocemente como uma forma de mascarar a sua dor.

Misato, coordenadora das operações de combate aos anjose mentora provisória de Shinji nutre uma relação de amor e ódio quanto a figura de seu pai que apesar de não se importar em substituir o trabalho pela família sacrificou a própria vida para salvar Misato durante o segundo impacto. O fato de ela ter se juntado a NERV devido o que ocorreu com seu pai a faz de certa forma se identificar com Shinji.

Ritsuko, cientista chefe da NERV admirava sua finada mãe como cientista, porém a desprezava como mulher devido a relação que esta mantinha com Gendo. Apesar de querer se tornar uma pessoa totalmente diferente da mãe ela acaba seguindo o mesmo caminho profissional e repete a relação doentia com o comandante.

Uma das angustias mais exploradas na série é a dificuldade que os personagens possuem de se aproximar de outras pessoas devido um receio de se machucarem de alguma forma. Essa questão se torna bem evidente quando  Ritsuko cita o dilema do ouriço que diz que apesar de dois ouriços terem a vontade de se aproximar e dividir afeto estes inevitavelmente irão se machucar devido seus espinhos.

A forma como os personagens evitam qualquer tipo de contato (Gendo e Shinji) ou ficam em uma relação de vai e vem para não se machucarem tanto (Misato e seu ex-namorado Kaji) pontua bem esse conceito que é apresentado aos espectadores.

Essa dificuldade comum que todos os personagens dividem é usada não apenas com uma análise de personagem ( e de nós mesmos) mas também como justificativa de uma agenda mais sinistra que se desenvolve na trama.

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Ao assistir os primeiros episódios nos damos de cara com uma segunda organização  fora a NERV, que aparece através de reuniões sinistras envolvendo o comandante Gendo Ikari. Trata-se da SEELE, organização secreta que manipula a NERV e a usa como seu instrumento para seu objetivo máximo, o projeto da instrumentabilidade humana. Projeto que tem como objetivo forjar um terceiro impacto artificialmente sem a interferência dos anjos para regredir a humanidade ao seu estado de sopa primordial, dessa forma unindo todos os indivíduos em uma unica entidade viva  acabando com toda dor e sofrimento causado pela individualidade. Ao unir todos os seres humanos as fraquezas de uns seriam anuladas pelas virtudes dos demais, dando inicio a uma nova era livre de dor para a humanidade.

Fora essa trama sinistra que é revelada ao longo dos episódios, Evangelion flerta durante outras ocasiões com a idéia de que uma espécia que se encontra em processo avançado de evolução inevitavelmente irá se destruir. Por incrível que pareça ai vemos mais uma referência psicológica na série, nesse caso remetendo a Sigmund Freud que dizia que  pelo fato de acharmos nossa identidade tão complexa e difícil de compreender acabamos por procurar respostas em nossas origens, em nosso estágio mais primordial, o momento que deu inicio a nossa existência que acaba se tornando uma obsessão por ser a única forma que seria possível de nos definirmos. Ai entram outros fatores, como a religião por exemplo.

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Aqui no entretenimento ocidental é comum artistas buscarem nas religiões e tradições orientais um teor mais exótico para suas obras. É possível vermos um processo inverso nas obras orientais que buscam o simbolismo das religiões abraâmicas como inspiração para a estética de suas obras.

Ao longo das diversas batalhas de Evangelion vemos inúmeras explosões e sinais tomarem forma de cruz fazendo alusão a símbolos cristãos, judaicos e gnósticos. Os Evangelions são constantemente chamados por sua abreviação EVA, devido o fato destes serem produzidos a partir dos restos de Adão, o primeiro anjo causador do segundo impacto. É estabelecida a mesma relação de Adão e Eva na Biblia, já que Eva foi concebida a partir de uma parte de Adão no jardim do Edén.

Nos estágios finais do anime descobrimos que a raça humana surgiu a partir de um ser extraterrestre batizado de Lilith, o fruto do conhecimento, enquanto os anjos surgiram de Adão, o fruto da vida.A relação ciência/religião dá as caras de forma mais sutil e interpretativa em comparação ao simbolismo frequente. A cidade de Tokyo-3 assim como o quartel-general da NERV e os próprios Evangelions são frutos da ciência, que é considerada pelos personagens a grande arma da humanidade. Entretanto o aparente domínio e destreza tecnológica se mostra nada mais que uma tentativa de domar o divino, tentativa que periodicamente se mostra falha através dos diversos momentos em que a unidade 01 se rebela e entra em estado de fúria durante sua luta contra os anjos.Aos poucos essa distinção vão ficando mais embaçada e tudo aos poucos parece fazer parte do “divino”.

Apesar disso tudo um dos grandes trunfos de Evangelion é o aspecto visual, que apesar de contar com um curto orçamento e de uma animação muitas vezes criticada por ser rustica ainda assim foi capaz de criar um mundo plenamente grandioso. Sem falar no filme  The End of Evangelion que possui cenas sensacionais.luta2

Por diversos momentos o anime nos prende por passar aquela pequena empatia que é resultado de uma breve enganada no nosso cérebro que assiste toda aquela cena e chega a conclusão que tudo aquilo seria plausível no nosso mundo caso esses eventos fossem possíveis.Vemos a cidade destruída, militares desperdiçando toneladas de munição inutilmente em cima dos anjos, a reação raivosa dos generais, os veículos da ONU se movimentando para dar suporte a NERV e seus Evangelions, os personagens discutindo sobre a burocracia entre o governo do Japão e a NERV e todo aquele papo ciêntifico maluco justificando a operação dos EVAs e a estratégia adotada nas missões.luta3

O design dos Evangelions apresenta um desenho mais humanoide, esguio e leve em comparação aos mechas clássicos que apresentavam um aspecto mais pesado que deixava bem claro se tratarem de maquinas apesar do design android. Já os EVAs tem um aspecto mais bestializado que visa dar enfase a sua metade biológica que nunca podemos ver completamente e por diversas vezes perde o controle e domina a porção mecânica.

E não podemos esquecer dos anjos, e seu aspecto bizarro e ao mesmo tempo amedrontador. Formas de vida que vão além da compreensão o que nos despertam a curiosidade e temor pelos personagens ao mesmo tempo.

Após o apertadíssimo final que foi ao ar na televisão devido o quase inexistente orçamento sobraram mais duvidas que respostas entre os fãs da série que se tornou rapidamente o novo sucesso da temporada. Com isso foi lançado o subsequente filme The End of Evangelion, que teve como objetivo recontar o mesmo final com um orçamento maior, possibilitando a visão integral de Anno. Ainda assim, quase 20 anos depois, existe muita discussão sobre oque realmente significa Evangelion e qual é sua mensagem. Ideaki Anno afirmou por diversas vezes que nunca haverá uma revelação definitiva sobre o significado de Evangelion, a intenção era criar uma obra que possibilitasse a livre interpretação por parte do fãs. Este pequeno texto aqui produzido é apenas um dentre tantos outros que estão na rede debatendo e oferecendo opiniões distintas sobre essa obra tão singular que nos presenteou com personagens cheios de personalidade e um mundo fascinante.

Com certeza é uma obra, cheia de pistas e informações para alimentar gerações de conversas de bar sobre essa obra atemporal. Mas eai? Qual é sua interpretação desse clássico?

Sobre Anderson Souza

Anderson Souza

Estudante de Biomedicina, admirador de jogos e vagabundo semi profissional.

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